Bombardeio de Salvador
O Bombardeio de Salvador, ocorrido em 10 de janeiro de 1912, é um dos episódios mais dramáticos e violentos da história política brasileira.
A mando do Presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca, as próprias fortificações da cidade abriram fogo contra o centro urbano, resultando em mortes, pânico e na destruição de um patrimônio histórico inestimável.
O pano de fundo foi uma disputa oligárquica local inserida na controversa “Política das Salvações” do governo federal.
O Contexto: A Briga pelo Poder
A tensão começou dois anos antes, na eleição presidencial de 1910. O jurista baiano Ruy Barbosa liderou a Campanha Civilista contra a candidatura militar de Hermes da Fonseca.
Hermes venceu, mas a Bahia continuou sendo o grande reduto político de Ruy Barbosa.
Em 1911, aproximando-se as eleições para o governo da Bahia, o cenário se dividiu:
O candidato federal: Hermes da Fonseca queria enfraquecer o grupo de Ruy Barbosa e, para isso, apoiou a candidatura de seu Ministro da Viação e Obras Públicas, J. J. Seabra.
A oligarquia local: O grupo aliado a Ruy Barbosa colocou no poder o governador Aurélio Viana.
Para evitar que o governo federal controlasse a verificação dos votos e garantisse a vitória de Seabra, os aliados de Ruy Barbosa usaram uma manobra jurídica e a força da polícia estadual. O clima na capital baiana azedou, com ordens judiciais sendo desobedecidas e o comércio fechando as portas ante a iminência de um conflito.
O Ataque: 4 Horas de Fogo
Na manhã de 10 de janeiro de 1912, sob o pretexto de fazer cumprir uma ordem de habeas corpus a favor de aliados de Seabra, o comandante da 7ª Região Militar, **General Sotero de Menezes**, alinhado com o presidente Hermes da Fonseca, deu o ultimato ao governador Aurélio Viana.
Às 13h40, o Forte de São Marcelo (Forte do Mar) disparou dois tiros de pólvora seca como aviso. Vinte minutos depois, o ataque real começou. Os canhões do São Marcelo, do Forte de São Pedro e do Forte do Barbalho começaram a bombardear o centro de Salvador de forma impiedosa. O bombardeio durou cerca de quatro horas e os estragos foram devastadores:
Palácio do Governo: Alvo central dos disparos, ficou completamente em ruínas (sendo reconstruído anos mais tarde e rebatizado como Palácio Rio Branco).
Biblioteca Pública da Bahia: Fundada em 1811 (a mais antiga do Brasil), funcionava junto ao Palácio. Ela foi incendiada por granadas, o que causou a perda irreparável de milhares de livros raros e documentos históricos coloniais**, que viraram cinzas.
Teatro São João e a Câmara dos Deputados: Também sofreram graves danos estruturais pelos impactos dos projéteis. Embora o número exato de mortes civis e feridos seja incerto e flutue nos relatos da época (com estimativas que variam de dezenas a centenas de vítimas), o cenário na manhã do dia 11 de janeiro era de uma cidade sob escombros e fumaça.
Consequências Políticas e Institucionais: O choque com a violência do ataque desestruturou o governo estadual. Isolado e sem o apoio das Forças Armadas federais, o governador Aurélio Viana renunciou logo nos dias seguintes e acabou fugindo para a França. O presidente do Tribunal de Relação, desembargador Bráulio Xavier, assumiu interinamente para pacificar a situação e conduzir o pleito. Com o caminho livre, J. J. Seabra venceu as eleições e assumiu o governo da Bahia em maio de 1912, consolidando a interferência direta de Hermes da Fonseca no estado.
A “Carta de Ouro”: O episódio causou tanta indignação que o então Ministro da Marinha, o Almirante Joaquim Marques Baptista de Leão, preferiu renunciar ao cargo a autorizar o envio de navios de guerra para reforçar o massacre em Salvador. Sua carta de demissão ficou conhecida como a “Carta de Ouro”, um marco histórico de recusa a ordens arbitrárias que feriam a Constituição.