Confea lança a série “Caminhos invisíveis: da Escola às nanotecnologias”
Danos ao corpo e ao mar. Assim se resumem os prejuízos atribuídos aos microplásticos e nanoplásticos, conforme pesquisas realizadas nas últimas duas décadas. Embora os estudos para estabelecer uma relação direta ainda sejam insuficientes, diversas seriam as causas e as formas associadas a agravos à saúde e ao meio ambiente, provocados por estes agentes poluidores presentes em quase tudo ao nosso redor. Não apenas em suas dimensões: entre 0,001 milímetros (1 micrômetro) e cinco milímetros, para os microplásticos, e entre 1 e 1000 nanômetros, ou seja, menores que 1 micrômetro, no caso dos nanoplásticos.
Referência Micrômetros Microplásticos (limite superior) 5.000 Diâmetro do cabelo humano 80 Grão de areia 90 Grão de sal 60 Partícula de poeira 2,5 Microplásticos (limite inferior) 1 Nanoplásticos <1 Coronavírus 0,1 a 0,5
Abordado por uma programação especial durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade para o Progresso da Ciência (SBPC), em julho do ano passado, na Universidade Federal Fluminense (UFF), o tema ganhará agora uma discussão igualmente multidisciplinar na Universidade Estadual de Campinas, de 1º a 11 de setembro. É a Escola São Paulo de Ciência Avançada (ESPCA) em Microplásticos, com palestras, aulas teóricas e práticas, apresentações de trabalhos de pesquisas e tutoriais de especialistas de diversas partes do mundo.
Constituída como uma rede que dissemina as pesquisas da área, a ESPCA se originou de um projeto de pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), financiadora do evento organizado pela Unicamp e pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). E que abrangia também a dispersão e os danos dos agrotóxicos em diversos ambientes.
No evento, reunindo jovens pesquisadores e veteranos, uma programação que abrange quatro perspectivas para o tratamento ao tema: “Dentro do microplástico: lidando com polímeros e químicos adicionados aos plásticos ou derivados”; “Por cima do microplástico: explorando o que acontece em sua superfície”; “Ao redor do microplástico: discutindo a dinâmica das interações do microplástico com os diversos meios onde eles se fazem presentes” e “Estrutura regulatória: o debate público e a as ações viáveis que se desdobram da ciência baseada em evidência rumo a uma política regulatória”.
“A Escola se reúne nesses encontros, e ela começou a apresentar seus primeiros resultados em 2010, e esta é a primeira vez, e provavelmente será a única, em que falaremos sobre os microplásticos. Não é possível repetir temas. E teremos uma participação que estamos na dúvida se é a maior de todas as Escolas com 1100 inscritos e 100 participantes, sendo metade do Brasil e 50 participantes do mundo”, comenta o vice-coordenador da Escola, o químico tecnológico Walter Waldman. Confira a seguir uma conversa com ele.
Mas o grande provocador pelo interesse no tema é o biólogo marinho britânico Richard Thompson, responsável, em 2004, pela definição do termo “microplástico” e pela descrição de seu fluxo até a cadeia alimentar humana. Professor da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, ele será entrevistado junto a lideranças da Escola, no próximo dia 4.
“Desde a primeira descrição, temos demonstrado que os microplásticos literalmente contaminam o nosso planeta. Eles estão no ar que respiramos, na água que bebemos e na comida que comemos”, apontou ao Jornal da Unicamp.
Entrevista quim. tecnol. Walter Waldman
Polímeros universais Do uso de embalagens na preparação de alimentos, responsáveis pela liberação dos chamados “disruptores endócrinos”, ao descarte inadequado, que chega a poluir desertos e oceanos. Nem mesmo os eventos extremos poupam esses resíduos, fragmentados pelo calor, dispersados pelos vendavais e pelas enchentes e impactando vários ecossistemas. Diversidade que tem motivado políticas e pesquisas ligadas à substituição das matrizes poliméricas. E que motiva essa série de reportagens, intitulada “Caminhos invisíveis: da Escola às nanotecnologias”.
Engenheiros químicos, de produção e de materiais e também químicos, sobretudo, descrevem o Poliestireno (PS), o Policloreto de Vinila (PVC), o Polietileno (PE) e o Polipropileno (PP) como alguns dos polímeros mais encontrados no meio ambiente, fugindo da gestão de resíduos. Pela ordem, eles estão presentes: nos copos descartáveis e embalagens (PS); nos “tubos e revestimentos” (PVC) e nas sacolas, embalagens e tampas (PE e PP).
Mas, além de descrever, estes profissionais já lidam com expectativas para introduzir novos nanomateriais capazes de reverter tanto o cenário mais evidente como os mais ocultos na cadeia permissiva. Assim, a nanotecnologia em plásticos busca superar o desempenho e reduzir os danos desses materiais. As resistências mecânica e térmica são reforçadas por aditivos nanométricos para plásticos. Nanotubos de carbono (NTCs) e grafenos reforçam a mecânica e a condutividade elétrica e térmica, por exemplo.
Desafio científico Na SBPC, a presidente Francilene Procópio Garcia publicou o artigo “A ciência e o desafio dos microplásticos”, argumentando pela presença do material em corpos e ambientes. “Em um mundo que produz mais de 400 milhões de toneladas de plástico por ano, compreender o destino desse material tornou-se uma questão científica, ambiental e de saúde pública.
Compreender a origem, o comportamento e os impactos dos micro e nanoplásticos exige a integração de pesquisas em química, biologia, oceanografia, toxicologia, medicina, engenharia, ciência dos materiais, saúde pública e ciências ambientais. Essa complexidade decorre não apenas da diversidade de polímeros existentes, mas também da capacidade dessas partículas de transportar outros contaminantes, interagir com microrganismos e percorrer diferentes ecossistemas até alcançar organismos vivos”.
Já o professor titular do departamento de Tecnologia Farmacêutica da UFF, Vitor Francisco Ferreira, apresentou a conferência “Microplásticos e Nanoplásticos na Saúde e Doenças Humanas”. Em entrevista prévia ao Jornal da Ciência, da SBPC, ele reforçou os riscos associados ao uso involuntário deste material, presente em todo o mundo, conforme Richard Thompson afirmara.
“Os resíduos plásticos sofrem degradação pela ação da luz solar, das ondas e do atrito entre os próprios fragmentos, quebrando-se em partículas cada vez menores até atingirem a escala nanométrica. Essas partículas entram na cadeia alimentar por meio da água, dos peixes e dos animais que ingerem água contaminada. Eles acabam chegando aos organismos das plantas, dos animais e também dos seres humanos”, apontou o químico brasileiro. “Hoje, todas as pessoas já estão contaminadas por plástico. Estima-se que cada pessoa consuma entre 39 mil e 52 mil partículas de microplástico por ano, o que representa uma ameaça significativa aos ecossistemas e aos seres vivos”.
Ao ponderar os pilares do método científico, Francilene Garcia cobra responsabilidade, sobretudo para considerar a intervenção da saúde humana. Mas afirma a importância de buscar soluções para “os impactos de um modelo de produção e consumo baseado no uso intensivo de materiais plásticos descartáveis”, evocando uma série de instrumentos proporcionados pelas atividades do Sistema Confea/Crea: “inovações tecnológicas, desenvolvimento de novos materiais, aprimoramento da gestão de resíduos”. Além do “fortalecimento da econômica circular e de políticas públicas fundamentadas nas melhores evidências científicas disponíveis”.
Diante da circularidade abrangida pelas atividades ligadas à Engenharia, à Agronomia e às Geociências, expressas pelo Índice Confea de Infraestrutura do Brasil (Infra-BR), precisamos repercutir um pouco mais a cientista da computação com doutorado em Engenharia Elétrica que está à frente da SBPC.
“Mais do que um problema ambiental, os microplásticos passaram a integrar uma agenda estratégica para o desenvolvimento. Seus impactos dialogam com a saúde pública, a segurança alimentar, a gestão dos recursos hídricos, a inovação industrial, a economia circular e a formulação de políticas públicas. São questões que extrapolam os laboratórios e exigem conhecimento científico para orientar decisões capazes de conciliar desenvolvimento econômico, proteção ambiental e qualidade de vida”.
Henrique Nunes Equipe de Comunicação do Confea
Fonte: CREA-BA — https://www.creaba.org.br/confea-lanca-a-serie-caminhos-invisiveis-da-escola-as-nanotecnologias/